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December, 2008 Conheça Socorro Lira
Foto: Alexandre Andrade Conheça Socorro Lira* Ela é incansável como intérprete e compositora! Raizeira da cultura musical dos Quilombos, chama um côco como nativa de Brejo do Cruz, na Paraíba, pra ninguem "butar" defeito. Com o pandeiro cadenciado pontua a voz suave e doce... No yjêxá "Sede de Amor" dá um passeio afro que encanta os mais exigentes! Olympio de Azevedo Nascida em Brejo do Cruz, Paraíba, reside em São Paulo – Brasil. Poetisa, compositora, intérprete, instrumentista e produtora cultural. Autora do projeto Memória Musical da Paraíba. Formada em Psicologia. Inicia-se ao violão como autodidata, vindo a estudar técnica violonística e introdução ao violão clássico no DART/UFCG. • 2008. Agenda internacional: II Encuentro Internacional “Somos de Maiz”, Caracas - Venezuela; projeto A Alma do Nordeste, Embaixada do Brasil em Atenas – Grécia; artista brasileira convidada da VII Mostra da Oralidade Galego-portuguesa / “Ponte... nas ondas!” – Galícia (Espanha), entre outros. • 2007. Edição do livro - Aquarelar (poemas próprios, lançamento da autora). • 2007. Produção e direção de um vídeo-documentário sobre o côco-de-roda de Caiana dos Crioulos (Paraíba). Espetáculos e gravações na França e na Galícia/Espanha. Destaques no ano 2006. Lançamento do CD Intersecção – A Linha e o Ponto em programações do SESC/SP, Funarte, Banco do Nordeste, Petrobrás, em universidades no Brasil e na Europa. Preparação da segunda etapa do projeto Memória Musical da Paraíba, incentivada pela Lei Rouanet. Aula-espetáculo e espetáculo em universidades européias(Porto – Portugal; Poitiers e Sorbone – França; Vigo – Galícia/Espanha). Palestra”Cantares de Mulheres na Paraíba” no II Segundo Congresso de Literatura Marginais na Faculdade de Letras, Porto – Portugal. Pesquisa sobre literatura e música medievais na França, Galícia/Espanha e Portugal para o projeto-álbum Cores do Atlântico. Participa do projeto Música do Brasil – Baião dos anos 60, no SESC Pinheiro (SP). Homenageada na Terceira Semana Cultural de São Bento (PB). Compõe a trilha sonora do vídeo-documentário O Ramo (PB). Fez a trilha sonora original do curta-metragem A Espera (RS). Em 1988 excursiona pela Itália recebendo o Premio Europa de 98 da Associazione Senza Frontiere (Milão). Discografia CDs As Liras Pedem Socorro (lançamento 2007) Intersecção – A Linha e o Ponto ( Petrobrás Cultura 2004-2005/MINC, 2006) Cantigas de Bem-querer (2003) Cantigas (2001) *Extraído do folder de apresentação da artista Socorro Lira quando do lançamento do seu CD “As Liras pedem Socorro” October, 2008 Coração predadorCoração predador,
Olympio de Azevedo
Sedutor, galanteador, Dom Ruan, Casa Nova, galã, namorador, atraente, charmoso, fascinante, deslumbrante, sublime, inspirador, aprazível, ameno, delicioso, carismático, encantador e poético. Não há caber para tantos papéis! Cabe-me apenas o neanderthal nouveau!
Sublimo o sonho, vou à busca da minha trilha caminhando no de o eterno caminhar sobre as estrelas e entro na bolha da lua e me desfaço no pingo do sol para banhar teu corpo nu. A bela me vê melhor que ninguém todos os dias, na certeza de que todo objetivo tem seu ponto fraco, embora confesse ser apenas um impulso atávico!
Herança genética primária! Quanto mais me conheceres, mais diferentes almas sentirás em ti. Folias com os alegres; sonhas com os poetas; os aristocratas, criados entre artifícios, amam em ti, pelo atavismo de teus apetites abrasivos e instintos atrevidos, e tu amas neles suas fidalgas maneiras traduzidas em pura poesia escrava.
Inerente do desejo coletivo de uma inteligência rara... Bem percebida pelo poeta das cavernas, onde os cristais reluzem o lirismo da amizade profunda da musa, enquanto profundo não for o amor. Quem é essa feiticeira cujo perfume entra na alma sem ao menos materializar seus espinhos que fere e faz sangrar todo o corpo?
Não há principio ou fim enquanto o mar esconder na profundeza o tesouro de Andra e os poderes de Lis. Velejo no coração mareante sem rumo por falta de leme. Nem ao menos uma bússola para indicar a direção do vento, arrasta-me em nome da natureza em meio a trovões e tempestades.
Com a adaga afiada a musa é a completude! Rogo por um olhar e negas, por uma voz e cala-se, por um encontro e foges... Tornei-me escravo da adversidade servindo uma rainha que impele o aríete contra as portas da cidade em plena maturidade. Tenha certeza: - Jamais usaria o arco e flecha para ferir teu peito... Um lápis e papel talvez sim!
Bunker do Gabeira Novo prefeito do Rio 15.out.2008 March, 2008 Mulher a única internacional
Mulher a única Internacional!
a.C. e d.C. a eterna Mulher!
Em Cântico dos Cânticos, três vezes milenário, sem rimas nem metros, o poeta Salomão em sua sabedoria acende de prima versando “Beija-me com os beijos da tua boca/ Os teus beijos são mais inebriantes que o vinho/ O teu perfume é suave...”.
Os antigos egípcios conseguiram de forma magnífica desvendar as fontes triangulares das energias emanadas por elas, materializando-as em formas piramidais e perpetuando-as nas semânticas em seus hieróglifos nas areias dos desertos. Remonta ao final do quarto milênio a.C., e marcha para o infinito em toda sua vontade.
E assim, a natureza humana vai açodar o tempo pelos caminhos das mulheres em um universo próprio. A estrela é das mulheres com trilha feita pelo o tempo que arrasta amontoando montanhas, conservando belezas e gerando riquezas perenes. E o que nós pensávamos ser simplesmente uma casta prosaica... É uma realeza sem burguesia!
De onde o tempo tem tempo, de entender a alma humana com todas as suas qualidades, defeitos e realizações? Até onde as qualidades se apresentam dentro do tempo sem as realizações? E as realizações cumprem o destino do tempo, no espaço do verbo, com qualidade e feitos no nobre cálice do amor!
As mulheres são intensas e participam da nossa estação de forma dócil, dinâmica e plástica em permanente mutação no seu orbe brilhoso! No altercar que temos mais águas do que terra nesse planeta - bem ao contrário - tem mais mulheres em volume e densidade, bem maior do que todas as águas que passam pelas pontes.
Onde tem água tem a mulher e sua formação rochosa e vulcânica dando permanência as mais incríveis criaturas, entre elas, o homem ameba. A ciência prepara um feito notável de descobertas das mulheres sempre acaloradas, movediças e mutantes, com embriões inerentes a inteligência. Há criatura mais maravilhosa?
Esquadrinhe ao imaginar, faça a projeção, de um mundo sem a mulher! Os vitrais de gelos que se sustentam em baixas e altas temperaturas possuem a mais fina película da mulher, responsáveis pela manutenção térmica e sustentação dos glaciais humanos. Você sabe que a elas - e não mais do que elas - são responsáveis por tudo que advir na existência!
A áurea da mulher é cultivada por partículas de átomos refratários, tem no seu feitio físico visual a sustentação dos cristais do amor, que formam a qualidade de arco-íris com cores distintas. A depender do grau de energia gerada em estado de luz a mulher é conclusiva, amante no singular e no plural dos anseios.
Até onde se possa ouvir o canto do pássaro, sentir o perfume das rosas e beijar a todas com o coração... Digo eu. Olympio de Azevedo Bahia dos Rebeldes, 08.03.2008. Dedico o texto a poeta baiana revolucionária Jacinta Passos a imortal do Campo Limpo.
1914 - 1973
December, 2007 Natal do meliante Papai NoelNatal do meliante Papai Noel!
Esconder o Natal violento no grande saco vermelho de Papai Noel foi uma proposta desesperada que chocou cobras e lagartos. O que era o pacifico e determinava na larga do mundo o nascimento de Cristo virou o mais lucrativo negócio para o comércio! Pense em qualquer coisa, eles nacionalizam, constroem, fabricam e comercializam com base na mão-de-obra mais barata do mundo! A bala perdida foi a mais vendida!
A lei da oferta e da procura pelo mais barato pode sair mais caro para sua família! Os calçadões das grandes metrópoles continuam em plena efervescência. Foi aí que a má malandragem fez um arrastão com duzentos e poucos Papais Leons, num determinado shopping da cidade... Todos a caráter conseguiram em questões de minutos, encherem os sacos vermelhos e a polícia nada podia fazer, diante de tantas figuras inocentes!
Quanto mais os compradores dos presentes natalinos gritavam mais calmos os bandidos agiam. Quem olhava de longe elogiava a iniciativa dos comerciantes por tão bela passeata nessa festa maior. As crianças maravilhadas nada entendiam, o avanço dos facínoras era uma tranqüilidade. Um mau Noel foi abordado por um segurança de loja que perguntou de que se tratava aquilo! – Estamos arrecadando para que depois possamos entregar em casa os presentes comprados...
Uma criança assistia a cena do Papai Noel sendo preso e protestou junto ao pai, um velho policial, que de imediato tomou a frente dizendo ser o meliante uma pessoa inocente e com uma carteirada livrou o Leon da prisão. A criança emocionada ainda recebeu um presente do sacolão abastado de roubo. Quando os policiais tentaram cercar o bandido, parte de uma multidão que não sabia da estória tomou a frente e o Leon foi embora tranquilamente.
O sucesso triste do arrastão de Natal teve a duração de 5 minutos, o suficiente para ser estimado um prejuízo de cerca 2.0 milhões de reais. Quando as pessoas se deram conta do que estava acontecendo, os Leons saíram de cena deixando uma massa de crianças chorando. Os pais não sabiam se davam atenção aos filhos ou reclamavam do roubo junto à delegacia mais próxima! Foi o Natal mais triste para os que ainda sonhavam com Papai Noel....
Olympio de Azevedo
July, 2006 De Salomão a Vieira
Olympio de Azevedo
Na minha loucura começo a formatar um quadrilátero literário inédito, cujos personagens fazem parte do tope de linha da literatura mundial, inquestionáveis em suas épocas até os nossos dias: Salomão, Crisóstomo, Santo Agostinho e Vieira!
Muitas passagens dos sermões do padre Antonio Vieira me atraem ora pela poesia intensa, vezes pela retórica e na maioria pela filosofia, como diria Geraldo Teixeira, insano pesquisador da qualidade literária.
A minha curiosidade era saber onde Vieira fez escola. Já que a semelhança com João Crisóstomo (Boca de Ouro) é gritante. Crisóstomo considerado patrono da eloqüência sagrada, designado pelo Papa Pio X.
Na variada produção literária Crisóstomo verso Vieira, é tão acentuada a semelhança que chega a ser um desafio saber a quem pertence os originais, em razão da erudição que os caracterizam. Vieira um dos grandes oradores sacros de todos os tempos!
A importância do fato para mim é o Antonio Vieira citar o Santo Agostinho como o novo Salomão, tendo como base os Cânticos dos Cânticos, que ora estudo e faço anotações sem sentidos bíblicos, sem preconceitos teológicos.
Vieira meio lisboeta meio soteropolitano tem a minha preferência, por ser mais recente, por ter tido a oportunidade de manusear alguns originais quase inacessíveis ao público! Curto algumas perolas que me fazem obrar poemas!
Os remédios do amor, e o amor sem remédios são as quatro coisas e uma só que prometi falar; porque sendo a enfermidade do amor a quem tirou a vida ao Autor da vida, não se pode mostrar que foi o amor sem remédio sem se dizer juntamente quais sejam os remédios do amor.
Desta matéria escreveu eruditamente o Galeano do amor humano, nos livros que intitulou De Remédio: Amoris, cujos aforismos, porque há de ser convencidos, entraram sem texto e sem nome, como quem não vem autorizar, senão a servir.
Continuo oportunamente... OA
June, 2006 Depois da tempestade,,,Depois das grandes tempestades em nossas vidas, às vezes, ao invés da bonança esperada, costumamos fechar a alma para balanço. E, por mais que digamos estar disponíveis ao diálogo, bem no fundo do nosso coração colocamos uma porta.
Assim acabamos, por comodismo, ficando com as pessoas menos perigosas; com aquelas com quem sabemos que nunca chegaremos a ter envolvimento maior, até porque sua percepção não é tão aguçada para penetrar no nosso interior.
E que possamos, também, ter alguns inimigos e, entre os nossos conhecidos, pessoas incompatíveis conosco, porque são eles que nos ajudam a superar os nossos limites e nos botam para frente, nem que seja para que lhes mostremos do que e o quanto somos capazes.
Olympio de Azevedo
Gostei muito da suite da Cintia e seria injusto não agregar ao Depois da Tempestade...
O problema são as garras. Homens e mulheres, não sabemos o que fazer com elas. No fundo somos lobos e como tais não domesticados, algumas pessoas fazem nosso instinto animal de proteção aflorar mais que outras. Seja porque farejamos o perigo ou porque não sabemos o que fazer com esse sentimento. Talvez a maioria dos homens seja apenas uma matilha de lobos mais ariscos e medrosos e nós, lobas mais protetoras, mas no final, todos arranham e machucam do mesmo jeito. Iria ainda mais além, essas garras aparecem em outras relações, não apenas entre homem e mulher, mas quantas vezes não conseguimos esconder as garras dos amigos, dos pais, dos filhos? Ao mesmo tempo que queremos acarinhar, as garras estão lá e machucam... Talvez quando a gente começa a aprender a se proteger menos, as garras se tornam mais suaves e a gente consegue se aconchegar melhor... acho que estou aprendendo, mas isso leva tempo... ( Desastres de Sofia...)
Somos escravos dos Senhores, somos o reverso dos sonhos...somos a coragem de estar assim...assim... e o medo de estarmos na realidade em sonhos e mais sonhos adormecidos...virar lo ou sapo é o que a vida nos empurra sem querer...são armadilhas? sim...armadilhas sem uqrer... Um bjinho Doce...
Cintia
April, 2006 Ninho de Amor
Ninho de Águia!
Nada como pousar num ninho onde o amor está sempre florindo! Eu gosto de falar de amor em qualquer situação. Assim nasci assim me criei, assim cheguei num lugar que não existe!A minha viagem foi longa e em muitas histórias fui personagem, autor, enredo, vítima, herói e bandido! Todas elas riscaram meu coração de forma tênue e sensual, criando dores e alegrias que se transformaram em saudades que cultivo em forma de música, compondo poemas, contos e peças que fazem uma trajetória regada de ansiedades e prazer.
Descobri muito cedo que o amor tem o tempo do verbo, e para conjugá-lo no futuro se faz senhor o presente, sem esquecer o passado! É um tri-pé de êxtases que formam as emoções sempre carentes de dengo, xodó, cumplicidade, e acima de tudo a verdade. No amor não existe base falsa. Extrair um sorriso da alma é tarefa de poucos! Lavrar um riso de criança é repousar na eternidade dos anjos, que só pecam por bondade! Só os pássaros cantam em louvor a natureza e ainda são presos como forma de vender seus cantos engaiolados!
A liberdade de amar está no cume de uma montanha, nas profundezas do mar, no ciclo do sol, nas quartinhas da Lua, entre as nuvens e o infinito do teu pensar... Este é o meu lugar.
Olympio de Azevedo 17.04.06 March, 2006 A Raposa e o Garrote Olympio de Azevedo
A Região do São Francisco, na Bahia, tem seus encantos e previlégios que só Deus conhece em companhia do velho brejeiro Chico d'Aurora. Em uma das minhas viagens, tive a oportunidade de conhecer a figura mais ilustrada do município de Santa Rita do Rio Preto. O avião monomotor Cesnna, sobrevoava a área agreste e toda paisagem por mim projetada ia aos poucos se desfazendo ao mesmo tempo em que a realidade da terra assumia proporções gigantescas.
Rio Preto, Rio Sapão, Rio do Ouro, Brejo do Ouricuri, Brejo do Sasafraz, verdadeira festa de rios e brejos harmonizando as largas. A idéia que se tem é que estamos em outro país. O avião pousou com um vento de cauda forte e o piloto mostrou toda sua habilidade no manche. Campo curto de terra batida que mais parecia uma montanha russa. Quando o motor desligou suspirei fundo!
Metade da população se encontrava presente no campo de pouso! Foi a glória do piloto que antes numa tentativa de pousar teve que arremeter como num passe de mágica, trazendo o manche em direção ao peito, para não atropelar uma vaca que pastava tranquilamente naquela minúscula pista e quase terminar a aterrisagem na torre da igreja matriz! Dei bom dia a São Pedro na porta do Céu!
Eu tive vontade de devolver meu café da manhã sem cerimônias.Aguentei firme. O pequeno asa dura tremeu todo e eu com ele! Mas subiu de mãos dadas com a paçoca de carne de veado, toda alimentação que tinha no estômago, além da bilis. Na segunda tentativa descemos usando todo o freio aerodinâmico e dos pneus.
A nossa tripulação de três, assustada e ainda aéreos, alheios a todo o povo que nos acompanhava com murmúrios, era audíveis, ora parecendo grunidos! Comentavam: - Quem são? São compradores de terras? Eu bem dizia que Chico D'Áurora era grileiro! Eu não disse! Vieram buscar preso o Chico, comentava um cartorário local que usava guarda-chuva que na realidade era um guarda-sol.
A pensão, uma velha casa de estilo barroco, trazia na soleira o número 17, com uma dúzia de quartos bem ventilados pelo mormaço, ora pela brisa úmida do Rio Preto, com o velho cais que levava o nome de Pau do Choro, que de acordo com os mais velhos nativos, era o local de despedidas das damas da região, quando dali partiam as barcaças.
O almoço foi cabeça de curimatá acompanhado de vinho de cajú. A torpeza tomava conta do corpo tenso pela viagem. Meus companheiros o veio Zuza e o professor Catão, da Universidade de São Paulo, ambos compradores de terras. Eu, proprietário de um latifúndio, com quase 300 mil hectares, diga-se de passagem, nem conhecia minha terrinha!
Sabia que fisicamente era quase do tamanho de Sergipe ou coisa parecida. Fiz uma daquelas compras sem ver! Acreditando no corretor e na documentação. Tambem pelo preço valia a pena arriscar prá ver o que acontecia...Ou eu passava a ser verdadeiramente um latinfundiário, grileiro ou mesmo quem sabe um fantástico gafanhoto! Da turma eu tinha certeza! Eu era o Coca-Cola!
Matreiramente, foi chegando à pensão de dona Lídia, Chico D'Áurora. Pesava uns 140 quilos. Sorriso fácil, simpático, calça dobrada na altura da virilha com um corrião que dava sem dúvidas para encilhar uma mula. O andar, apesar do peso, lembrava um felino, os bolsos da calça eram nas pernas. Em cada bolso alguns milhões em notas promissórias e duplicatas.
Chico sentou-se em um banco de três pernas e começou com muita "didática" a falar da região, seu futuro e suas possibilidades. O meu queixo foi caindo na proporção em que D'Áurora falava. Na realidade, naquele momento o homem do "mato" era eu. As informações surgiam como se estivesse assistindo um jornal de TV,com Joemir Betting.
- Como vocês devem saber, o Brasil fechou um acordo de compra de petróleo com o Irã, esse víl óleo negro que tanto tem modificado nossas vidas por aqui. Em consequência desse acordo, o nosso governo exigiu que os iraquianos aplicassem 30 por cento desse capital em projetos brasileiros. Eles concordaram e escolheram a agricultura como objetivo do acordo.
Ainda com pose de grande mestre continuava: - Os senhores não se enganem,a área escolhida pelos investidores é esta aqui! - E bateu forte com o pé, no chão da varanda que os pilares estremeceram! Vi o sorriso nos olhos iluminados do doutor Catão e do vendedor Seu Zuza. Era impressionante a verbosidade do Chico D'Áurora, fiquei convencido de se tratar de um fato verdadeiro! O homem era um gafanhoto em tamanho e proporções.
As incertezas invadiram minha mente ressaquiada de tanto falatório de grilagem etc, etc. Veio a certeza e a conclusão que eu estava arruinado. A sensibilidade do Áurora, era sem dúvidas extra-sensorial e sem deixar dar um suspiro , emendou: - Doutor, a raposa estava na sombra de uma jaquitiura morrendo de fome, quando passou um garrote viçoso de 30 arrobas, trotando em frente a um refrigero... e eu, atento a estória!
Cheio da verdade, parou fez uma pausa e continuou: - A raposa mortinha de fome quando viu os bagos do garrote nelore pendulando, seguiu com o olhar firme acompanhando o tão cobiçado manjar! O garrote trotando e a raposa seguindo com atenção nos bagos, assim passou o dia. A raposa não aguentando de tanta fome caiu no chão quase morta...
Com um jeito bem matreiro Áurora concluiu: - É a raposa ficou olhando o garrote trotando e se distanciando e os bagos pendulando... Na verdade, ainda hoje não sei se na estória do Chico d'Áurora sou a raposa ou o garrote! De uma coisa estou certo nem tudo que balança cai!. March, 2006 Dia Internacional da Mulher
JACINTA PASSOS foi uma lutadora incansável pela justiça social. Ela usou sua inteligência e grande talento como poeta para defender um mundo menos desigual, um mundo capaz de tratar bem todos os seus habitantes, sobretudo as mulheres, que, à época em que ela viveu, eram ainda mais desrespeitadas e oprimidas do que hoje. Enfrentando toda sorte de preconceitos, JACINTA PASSOS jamais desistiu de seus ideais. Acreditou sempre na beleza da poesia e no valor da luta para sensibilizar os corações e as mentes dos seus semelhantes, certa de que, mesmo com obstáculos, o caminho será percorrido e as conquistas acontecem e acontecerão. Por isso, a melhor homenagem que se pode prestar a JACINTA PASSOS é relacioná-la a eventos como este, onde ARTE e POLÍTICA, com letras maiúsculas, caminham juntas, a serviço de um presente e de um futuro mais digno para as trabalhadoras e os trabalhadores brasileiros. Parabéns aos organizadores e aos participantes do evento, especialmente ao COLETIVO DE MULHERES EM LUTA “JACINTA PASSOS”. Deixem-se agora comover pela poesia de JACINTA PASSOS, em Cruz das Almas, terra onde ela nasceu e que tanto a inspirou. Janaína Amado, filha de Jacinta Passos December, 2005 Natal na estrada
Natal na estrada...
Eu estava na roça e fui lembrado várias vezes que o Natal estava próximo. Passava nos lugares e tinha sempre alguém me desejando um Feliz Natal! Nunca me preocupei em buscar o significado mais íntimo do mesmo, fora o nascimento de Cristo! Meu pai não gostava! Tinha perdido a mãe no dia. Sempre lembrava a história mostrando a noz que ela tinha dado no dia de sua morte. A história me assustava e eu perdia a coragem de pedir o meu sonho de consumo, a tal da bicicleta Hércules!
Minha mãe sempre arranjava um jeitinho de dar lembranças a todos, tinha a capacidade de não esquecer ninguém. A mesa era farta de frutas e guloseimas, tropicalizada com arranjos, que mais faziam a minha realidade. A vontade de dormir cedo para ver o que ia ficar nos sapatos colocados na janela tinha força 10. O cheiro da marcela dos travesseiros e Julia ajudavam a conciliar no sono com mais facilidade. A preguiça de acordar parecia nunca ter existido.
Júlia era quem tomava conta de mim. Uma gaza bonita que me iniciou em todas as ousadias permitidas a um menino irrequieto e curioso. Hoje eu entendo como meu pai era sábio e generoso em dividir Júlia comigo, sem minha mãe saber! Conheci o prazer da carne muito cedo e aprendi a valorizar, mesmo desenvolvendo um ciúme contido. A idéia de posse de uma fêmea só aparece aos oito anos de idade, com uma vizinha que eu não tinha de dividir com alguém, acreditava ser só minha! Ingenuidade faz parte do amadurecimento.
Fiz uma jornada dirigindo por nove horas. Na medida em que passava nos lugares imaginava como seria o Natal de todas aquelas pessoas a beira da estrada! Alguns casebres de barro com varas, construídos no sopapo, o telhado de folha de compensado usado em alguma obra, às vezes de papelão ou palha de coqueiro... E uma voz me dizendo no pé do ouvido: - Pare! Pergunte se alguém da casa conhece Papai Noel! Parei! Desci do carro meio cabreiro pela maluquice de atender a tal voz.
Tinha uma velhinha com uma idade avançada e duas crianças sentadas a beira da porta, se é que você podia chamar de porta os dois sacos de calhamaço emendados cobrindo a visão do cômodo. A extrema pobreza nunca me assustou, mas me incomoda pelo alto grau de desinformação, que cerca os padrões da sobrevivência digna.
-Bom dia comadre, a senhora sabe me dizer se Papai Noel já passou por aqui? - Como é mesmo o nome do moço meu fio? Meio desajeitada e cuspindo o sarro do fumo de corda no canto de barro, ficou me olhando meia desconfiada. -Papai Noel o velhinho do Natal que sempre veste vermelho, tem barba branca, usa um chapéu parecendo gorro, minha comadre! - Tô alembrada não! Ele tem roça aqui? - Não tem não. Ele traz presente no fim do ano para as pessoas, coloca nos sapatos debaixo da cama e quando agente acorda tem uma lembrança prá gente! - Prá falar a verdade o nome não passa na minha cabeça...retrucou a velhinha. - Agente não usa sapato embaixo da cama, usa nos pés meu fio...se bem me alembro faz anos que num calço. A criança mais velha que observava a conversa interfere: - Vó o moço tá falando daquele outro da folhinha que seu Agemiro manda prá gente se lembrar dele nas eleção. A Vó ajeita o touço e responde: -Sei, agora sei quem o senhor tá querendo saber! Moço ele não vem aqui há um bom pedaço e quando vem é prá pedir, dá mesmo nunca deu, só pedi o tal do voto e iguale a ele tem de porção aí prá frente... Baixei a cabeça e voltei para o carro pensamentando quantos Papais Noeis deviam ter neste Brasilis. December, 2005 Pura vontade...
Pura vontade ou doce loucura!
O suor percorre o rosto vindo das entranhas maltratadas pelo esforço do caminhar sem conhecer o rumo entre pedras escaldantes aparentemente adormecidas ao tempo. O sol aberto no céu é a estrela vermelha do juízo indócil querendo fermentar visões da doce loucura que toma conta do pensamentar lúdico que trás o fogo nos fios das águas vivas.
Sem respostas ao que não foi perguntado, sem a luz que não fora acesa, sem a chama que queima a alma vadia, dona de réstia da razão, o corpo dobra em posição fetal. As pernas esquecidas não suportam mais alguns passos da sombra da carcaça do homem pelegrino, que na força do ideal almejou realizar a cura da fome.
Garganta seca, língua inchada pelo veneno do verbo complicado dos doutores, não mais cabia na boca. Os olhos esbugalhados e as ventas ofegantes suplicam perdão, pelo que não fez dentre o ensinar dos homens. A mão calejada no labor roçaliano em companhia da enxada não mais acalentaria o dorso da cadela com mal de tristeza.
Os urubus sentindo a fragilidade, observando a fraqueza, pairavam em círculos nas correntes do ar quente a espera da presa moribunda. As larvas do chão começavam uma jornada em busca da destruição. O vento mórbido sopra o odor da morte, e pela exaustão arrasta a vida eterna prometida.
Doce loucura ou puro engano?
Olympio de Azevedo
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